Como encarar as perdas?

Por Ana Claudia Quintana Arantes para Site Vida Simples

Não temos o hábito e tampouco somos incentivados a conversar ou refletir sobre nossas perdas e luto ao longo da vida. Mas isso é essencial para encararmos nossos fracassos e, dessa forma, seguirmos em frente mais maduros, sábios e fortes

No país da alegria, do futebol, do Carnaval e do “jeitinho” parece que não se tem a menor noção de que nem sempre a gente ganha. Apesar de quase sempre percebermos que o sofrimento vindo das nossas perdas e luto acaba sendo mais intenso e difícil de superar, poucas pessoas se importam, de verdade, em aprender com isso.

pexels-cottonbro-4069291Encontramos centenas de livros, programas de treinamento, cursos de reprogramação de linguagem, de modo de ação, de existência que só pregam ganhos ou resultados positivos.Indo na contramão disso, a vida mostra que os maiores aprendizados não estão disponíveis em cursos preparatórios de vitórias, e sim no dia a dia da experiência da perda, nos ensinamentos que vêm à tona a partir dos fracassos.

Tudo isso quando nos permitimos parar e olhar para o que aconteceu. Geralmente, as pessoas não se abrem para refletir sobre um tropeço, uma queda, um fracasso, enfim. Elas perdem um tempo precioso, que poderia ser dedicado a pensar sobre aquilo que ocorreu, ficando somente nas lamentações e nas percepções de vítimas dos eventos – e quase nunca como protagonistas da própria vida.Experimentar uma perda será muito mais fonte de sofrimento se não formos capazes de viver de maneira integral o que nos é oferecido.

Pessoas ficam pelo caminho

Se em um relacionamento não tivermos a experiência da entrega de maneira integral, no instante em que ele termina a dor do que não foi vivido pode ser absurda. Num mundo como o nosso, a entrega para a experiência de vida acaba sendo evitada, por uma desculpa de autoproteção. Se não damos o nosso melhor, não há como perceber o quanto o outro se transformou a partir do encontro conosco. E, se não aceitamos o que o outro nos ofereceu, jamais vamos nos dar conta do quanto ele nos transformou também. A ficha cai bem na hora em que não há mais tempo para quase nada, ou, pior, no momento em que a relação morreu, acabou, deu seu último suspiro.

A grande dificuldade que temos em um relacionamento, por exemplo, é que nenhuma das partes envolvidas fala ou mesmo analisa sobre a possibilidade do fim antes que ele chegue de maneira definitiva. Queremos acreditar que tudo é para sempre, que de algum jeito as coisas vão dar certo. Mas, de verdade, nada é para sempre. A dificuldade que temos em encarar que as relações mudam, que as pessoas mudam, e que inclusive nós mudamos é um dos maiores desafios das relações humanas.

Valorizar o que realmente importa

Aliás, quando falamos sobre a vida profissional, o mundo das perdas também não é muito diferente. Desde jovens somos obrigados a pensar que só há um caminho de sucesso e de felicidade para nós. E isso, em geral, significa ter uma carreira de muita ascensão, um ótimo salário, uma conta bancária polpuda, uma família no melhor estilo “margarina” (pai, mãe, filhos, com todos sentados numa mesa felizes e animados) e uma saúde eterna.

Mas, quando a realidade bate na nossa porta, percebemos que as carreiras de sucesso e a fartura de dinheiro são condições raríssimas. E, além disso, muitas vezes cercadas ou preenchidas de profundas decepções e muito sacrifício. A família perfeita não existe e, por causa de conflitos com os quais não aprendemos a lidar, as perdas vão se sucedendo e causando muito sofrimento.

No entanto, quando a saúde se esvai – esta, sim, muito pouco valorizada perto das outras dimensões do ser humano – é que contemplamos pela primeira vez a possibilidade de nossa real finitude. E é por causa dessa perda que conseguimos olhar para o que realmente importa nesta existência. Só deveríamos levar em conta aquilo que não se conta.

Despreparados para perdas e luto

Não se fala sobre “como perder” nas rodas de conversa, nos grupos de WhatsApp, no almoço de domingo com a família ou na happy hour com os amigos. Existe curso para tudo, preparo para quase tudo, até para o que pode não acontecer. Por que, então, não somos preparados para perder, fracassar, cair?

Há que se entender que não há fracasso diante das perdas ao longo da nossa trajetória. É preciso ter respeito pela grandeza do ser humano que enfrenta seu caminho e o reconhece como fonte de evolução e amadurecimento. O verdadeiro herói não é aquele que foge frente à possibilidade da derrota, mas aquele que a reconhece como sua maior sabedoria.

Sempre comento que o que fica é a última impressão. Você se casa com a pessoa mais incrível do mundo, passam anos juntos caminhando lado a lado, mas daí os desencontros acontecem e a relação termina. Qual a lembrança que, em geral, fica? A dos momentos finais, as brigas, discussões, acusações. E você só consegue manter na memória tudo o que ela lhe fez de mal e sente uma dificuldade enorme ou até uma incapacidade de valorizar o que foi vivido de bom.

E que histórias de últimos dias contarão a nosso respeito ao final de uma relação, ou na saída de um emprego? Como nos comprometemos a valorizar o que aprendemos com experiências importantes que vivemos e que tiveram fim? O sofrimento pelas perdas intangíveis também é um tipo de luto. O processo de restauração da nossa autoestima e de reconhecimento daquilo que temos de melhor leva tempo e trabalho de reflexão.

Se libertar dos pesos

Só quando a gratidão permeia nossos pensamentos ao redor do evento perdido é que o sofrimento das perdas e luto vai embora – e isso pode demandar tempo. E é difícil lidar com a possibilidade de aceitar esse fato quando ainda estamos muito machucados por isso. Mas com paciência e amorosidade teremos chance de nos libertar desses pesos e seguir caminhando com leveza pela vida.

A questão é que o tempo do luto por qualquer que seja a nossa perda compromete a qualidade do tempo que vivemos. Seja um ciclo de trabalho que chega ao fim, o término de uma relação, uma falência, ou o rompimento de uma amizade. Isso porque, em geral, a vida segue e parece não haver espaço para pausa e para processarmos o que ocorreu.

Seguir com gratidão

O que fazer então se a vida pede pressa e a alma pede calma? Penso que deveríamos, primeiro, evitar culpar os outros e, a partir disso, viver o que temos de melhor a cada momento, nos entregando a cada relação. A perda é inerente à vida e faz parte dela. Ao entender que isso é inevitável, podemos tentar ficar mais apaziguados para não temê-la – ou evitá-la quando acontecer.

Acredite, nosso tempo de vida um dia acaba – isso é realmente inevitável –, mas a forma como escolhemos estar aqui pode trazer experiências de imortalidade. Para sermos vitoriosos na nossa jornada é necessário aprender a não ganhar sempre. Perder nosso apego pela tristeza do fracasso é um bom caminho de vitória. Assim, é importante sabermos que, apesar de difícil, podemos escolher como vamos encarar as perdas da vida. Se vamos fazer isso como um sofrimento eterno ou como gratidão.

 

Ana Claudia Quintana Arantes é médica geriatra, especializada em cuidados paliativos. É professora da The School of Life, em São Paulo, onde ministra, entre outras, a aula Como Lidar com a Morte. Ana Claudia acaba de lançar o livro A Morte É um Dia Que Vale a Pena Viver (Leya).

Série Dilemas foi uma parceria entre a revista Vida Simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

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